O desenvolvimento está matando o modo de vida tibetano?

Imigrantes chineses estariam descaracterizando, lentamente, a identidade da região com turismo e novos costumes
BBC



Homem TibeteHomem sentado abaixo de um outdoor sobre condomínios fechados à venda na cidade de Lhasa, no Tibete. Tibetanos estão lutando para manter a imagem cultural da região. (Getty Images)

A BBC fez uma rara viagem ao Tibete, controlada pelo governo chinês e quase todas as pessoas entrevistadas foram escolhidas a dedo pelas autoridades.

No alto das montanhas do Tibete, há temores de que um antigo modo de vida esteja morrendo lentamente. A China trouxe desenvolvimento para a região, mudando tudo, tentando modernizá-la, mas alguns tibetanos estão preocupados que a identidade original esteja sendo corroída.
Uma das evidências de que as coisas estão mudando no Tibete é a fábrica de água mineral 5 100, a quatro horas de distância de Lhasa, a capital. As garrafas de água, importadas pela Alemanha, dançam na linha de produção. O nome vem da altitude da geleira que fornece água à fábrica, a 5 100 acima do nível do mar.
A água é vendida em cidades distantes da China e a fábrica trouxe emprego e dinheiro para uma região pobre. Cerca de 150 tibetanos trabalham aqui. Dizem que o trabalho não é pesado e ganham cerca de 2 mil reais por mês, um alto salário para os padrões locais. Mas não é tão simples quanto parece.
A fábrica é propriedade de uma empresa registrada em Hong Kong e os lucros, assim como a água, realmente fluem para fora do Tibete. Embora o diretor da fábrica diga que a água que recolhe da geleira não cause nenhum impacto ambiental, ela deixa de fluir para um pântano, no vale, onde manadas de iaque pastam a grama da montanha.
Em Lhasa também há sinais de mudanças. O palácio Potala, erguido sobre a cidade, já foi a casa do Dalai Lama antes dele seguir para o exílio. É um símbolo do modo como os tibetanos resistem a influências estrangeiras. Mas agora o pátio do palácio está repleto de visitantes chineses. O turismo é outra marca dos planos chineses de desenvolvimento.
Qiangba Gesang, diretor do palácio Potala, afirma que nos últimos quatro anos, 370 mil turistas receberam permissão para visitar o local a cada ano. Agora, o número subiu para 600 mil. É um sinal de como a economia chinesa está se desenvolvendo e uma forma de tornar os tibetanos mais ricos também, disse. Mas não tem uma resposta clara quando perguntando se o crescimento do turismo tem algum impacto na estrutura antiga.
O influxo dos chineses da etnia han como turistas e imigrantes está mudando o Tibete. Da mesma forma como a política de mudar cada pastor ou agricultor tibetano para uma nova casa. A BBC visitou um projeto modelo nos arredores de Lhasa. Há fileiras de casa de pedra cinzenta com as bandeiras de oração tibetanas tremulando. A China afirma que construiu 230 mil do que chama de “casas confortáveis” para 1,3 milhão de tibetanos nos últimos quatro anos.
Eles recebem subvenção para pagar as prestações. Mas os tibetanos tem de usar sua própria poupança e tomar empréstimos, por isso acabam em débito. Muitos tibetanos na vila arrendaram suas fazendas para imigrantes chineses para fazer dinheiro. Os chineses plantam verduras e os tibetanos trabalham na construção civil em Lhasa, de forma que a demografia do Tibete está mudando.
Dentro de uma das casas encontramos Do Bu Jie. Em uma das paredes, como em toda casa, há um pôster dos líderes do Partido Comunista chinês, como Mao Zedong e Hu Jintao. Abaixo das fotos, um grande aparelho de TV. Do Bu Jie é um membro do partido e apóia o projeto das novas casas.
“Nossas casas velhas eram feitas de barro, não eram tão boas”, disse. “Eu era apenas um fazendeiro. Mas o partido cuida de nós.” O governo chinês realmente acredita que suas políticas estão ajudando a transformar o Tibete, que as autoridades chamam de estado atrasado. Mas anquanto alguns tibetanos são beneficiados, muitos não estão convencidos. Eles acreditam que os ganhos econômicos vão para os imigrantes chineses. E que seu modo de vida e identidade cultural estão ameaçados.
O número de chineses que migram para o Tibete é um tópico sensível. As estatísticas oficiais não estão disponíveis. Mas em Lhasa, eles se movem na nova estação ferroviária, um prédio gigantesco e moderno. A estrada de ferro é o maior investimento de Pequim no Tibete. Custou bilhões de dólares e foi criada para ligar a região ao resto da China.
Um trem para e os passageiros descem à plataforma. Há trabalhadores chineses, levando suas poucas posses, tibetanos com fardos com mercadorias, grupos de turistas vestindo bonés vermelhos e uns poucos visitantes estrangeiros. A cada dias chegam 3 mil pessoas, 1 milhão por ano, um terço deles turistas. Em conversas com tibetanos fica claro que a chegada de chineses han causa ressentimento.
Outra questão é a sobrevivência da língua tibetana. Na escola experimental Tibete Xangai, assim chamada porque foi construída com fundos do governo de Xangai, uma classe de crianças tibetanas recebem lições de chinês. São 900 estudantes. Metade dos professores é chinesa e somente o tibetano é ensinado na língua local. Todas as provas devem ser escritos em chinês.

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