Quando a perda substitui o lucro

           Geradores de prejuízos para os varejistas, os diversos tipos de perdas são responsáveis pela definição das receitas das empresas e podem abalar estruturas menos estáveis

Adriana Lampert

 Ramos lembra que os cheques sem fundos eram grandes responsáveis por queda no faturamento. Foto: Gabriela di Bella/JC

          Os motivos são variados, mas o resultado é o mesmo: prejuízo financeiro e, por vezes, desgaste administrativo. Ocasionadas por furtos, fraudes, desperdício, negligências e até mesmo ações na Justiça, as perdas no varejo são um vilão empresarial que prejudicam principalmente supermercados, hipermercados, e atacados de autosserviços. Levando em consideração os grandes varejistas, esses danos podem ultrapassar 2% da receita líquida das empresas.

          Segundo estudo da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) em parceria com o Programa de Administração do Varejo (Provar) e a empresa de pesquisa de mercado Nielsen, o lucro líquido médio dos supermercados brasileiros em 2006 foi de 1,75% e as perdas foram de 1,96%. O número relativo é assustador quando se fala em cifras de faturamento do setor. Enquanto os supermercados brasileiros ganharam R$ 2,2 bilhões de lucro, passaram dos R$ 2,44 bilhões de prejuízo na receita.

        Entre os danos mais comuns dentro dos pontos de venda, os furtos chegam a representar até 3% dos prejuízos em um período de um ano. Os delitos que podem partir tanto de fontes externas quanto internas (neste caso, cometidos por funcionários) representam aproximadamente 70% das perdas totais.

           “O mais preocupante é que esses dados foram obtidos através de pesquisas com os grandes varejistas, que são bastante competentes na prevenção das perdas. Isso significa que esses dados podem ser ainda maiores, se entendermos uma empresa que não possui boas práticas em prevenção”, ressalta o consultor Marco Antonio Geraigire, sócio-diretor da Geraigire Soluções para o Varejo.

         Os supermercados são mesmo os mais suscetíveis a esse tipo de ocorrência. Aproveitando-se de um corredor vazio, uma pessoa mal-intencionada coloca uma garrafa de uísque embaixo do casacão de inverno. Não é cena de filme, é fato corriqueiro nestes tipos de estabelecimentos. Para evitar que isso aconteça, os varejistas têm que identificar os produtos mais visados e facilmente revendidos no mercado paralelo. Além de uísques, estão na mira dos ladrões as lâminas de barbear e carnes nobres, no caso dos supermercados. Mas há também inúmeros artigos que chamam a atenção em outros segmentos. Entre eles, os medicamentos para disfunção erétil e dermocosméticos, principais alvos de quem furta em farmácias.

          Entre as formas de prevenir danos, é importante ter um controle de estoque e realizar, constantemente, inventários para saber quais são as perdas de determinado período, ensina a consultora gaúcha Nirlei Azevedo. “Posicionar mercadorias mais visadas em acessos mais difíceis, para que não fiquem expostas, e instalar câmeras de segurança é o básico”, resume.

         Orientar funcionários sobre a abordagem adequada – no caso de desconfiança do furto – e de que forma podem reconhecer um possível gatuno são outras dicas. “Uma pessoa que chega em determinada loja, sem querer ajuda do vendedor, com olhar incerto, e que fica rondando pelos estandes, pode gerar suspeita. Ela deve se tornar foco da atenção dos vendedores. Mas em hipótese alguma se pode abordar alguém que esteja com uma mercadoria da loja, antes que chegue na porta de saída, porque enquanto o sujeito estiver dentro do ponto de venda não se pode afirmar que o produto não será pago”, alerta Nirlei.

          Orientar a equipe de trabalho sobre o assunto, deixando claras as sanções para caso aconteça o furto, é uma estratégia eficaz de prevenção, na opinião de Geraigire. “Tolerância zero é a política mais eficiente para se evitar perdas”, sentencia. Segundo ele, a mais poderosa ferramenta de precaução é uma equipe de funcionários comprometidos, motivados, reconhecidos e bem treinados no assunto.

         Antenas antifurto (acustomagnética ou de rádio frequência), circuito fechado de TV, espelhos convexos, mensagens dissuasivas, seguranças à paisana misturados entre os clientes são outras alternativas para evitar prejuízos ocasionados por furtos, garante o especialista. Mas ele lembra que para se prevenir de perdas, os empresários precisam mais do que instalar câmeras ou seguranças. Mesmo com equipe treinada, é fundamental mapear os produtos mais furtados, o impacto no orçamento e a frequência com que o furto ocorre. Ou seja, o objetivo não é flagrar, mas evitar que o furto ocorra.

Falta de controle agrava o problema

          Em 2008, o prejuízo médio do faturamento das empresas foi de 2,05%, segundo a 9ª Avaliação de Perdas no Varejo Brasileiro, realizada no ano passado pelo Provar, administrado pela Fundação Instituto de Administração (FIA). A pesquisa, que teve parceria da Felisoni Consultores Associados, da Abras e da Nielsen, coletou informações junto a 77 companhias, de todas as regiões do Brasil – representando 269 mil colaboradores e mais de 3 mil lojas, com faturamento conjunto de R$ 66,6 bilhões. O estudo analisou dados sobre perdas, causas e investimentos em prevenção.

        E não deu outra: o principal fator para o crescimento de perdas totais apontado pelos varejistas de vestuário, eletroeletrônicos, drogarias, lojas de material de construção, supermercados e atacados foi o aumento de furtos, seguido da falta de investimento em prevenção de perdas e a abertura de novas lojas. Apenas 69% dos entrevistados informaram ter uma área estruturada para coordenar a prevenção de perdas no ponto de venda. “Porém, esta é uma preocupação importante para qualquer varejista que deseja aumentar a lucratividade de seu negócio”, explica Claudio Felisoni de Angelo, coordenador geral do Provar. Segundo ele, as grandes redes chegam a investir 30% do seu lucro em tecnologia para estancar o problema. De acordo com o Centro de Pesquisas do Varejo da Grã-Bretanha, o Brasil é o sétimo país com mais perdas neste segmento.

        Mas nem só de furtos são feitos os prejuízos do varejo. A falta de controle na operação representou 40,3% dos danos em 2008, segundo a pesquisa do Provar;  e os erros administrativos responderam por 14% do comprometimento do faturamento das grandes redes. “Perdas por falhas nos processos do varejo, como venda, compra, financeiro e de recursos humanos, possuem gargalos que, se não forem bem desenhados, causarão prejuízos num determinado momento da história da empresa. A revisão cautelosa e o redesenho desses processos são fundamentais para a prevenção”, diz o consultor Marco Antonio Geraigire, sócio-diretor da Geraigire Soluções para o Varejo.

Estoque afinado evita prejuízos

        A Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo (USP) revelou que as empresas perdem, em média, 1,96% de seu material estocado, em um estudo feito em 2008. Isso pode ocorrer durante o transporte, armazenagem, ou – novamente – via furtos internos ou externos. “Há uma variabilidade grande de setor para setor. Mas a questão é que em termos de perdas de estoque, isso é algo que interfere muito nas empresas”, avalia o economista Pedro Ramos, da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecomércio/RS).

         Ele observa que este problema pode ser gerado por outros motivos, caso de um item com determinado tempo de valor agregado. “Se a empresa não vende um produto que sai de linha, acaba liquidando abaixo do preço, o que gera perda”, lembra o economista.

        Em termos de capital de giro, as perdas de estoque acabam tomando muitos recursos das empresas, dependendo de cada setor. “Alguns segmentos, como o de material de construção, podem perder até 30% dos produtos.” O economista observa, ainda, que quanto mais durável é o bem, maior a relação com processo de custo de estocagem – e maiores as perdas. “Roupas dão menos prejuízo neste sentido do que itens como DVDs e home theaters, que sofrem defasagem tecnológica muito grande”, compara.

         Outras perdas se enquadram nos prejuízos que os supermercados precisam enfrentar, desde erros no cadastro de produtos, formas de exposição dos itens, até danos causados por mercadorias que caem no chão e quebram, ou são degustadas por um cliente ou funcionário.

         Fatores como a quantidade de itens diferentes com prazos de validade, produtos perecíveis e a cultura do desperdício também são citados por empresários do ramo como causadores de danos financeiros. Segundo a Abras, as seções em que as perdas são mais altas são as de produtos perecíveis, caso dos açougues e das gôndolas de frutas, legumes, verduras e frios. Nestas, o prazo de validade dos produtos é curto, e as perdas representam cerca de 6% do volume da categoria.

Fraude também é vilã

         Perdas de crédito e inadimplência também geram um custo elevado para o lojista, segundo o economista Pedro Ramos. “Até pouco tempo atrás, o cheque sem fundo era o grande vilão. Isso já minimizou muito, o número de cheques devolvidos caiu, porque a utilização é menor devido ao advento dos cartões de crédito”. Mas a inadimplência está na base de 2% a 3% no número de cheques, alerta Ramos. “Normalmente são fraudadores – e não inadimplentes – e assim é impossível recuperar estes danos”, conclui.

          A consultora Nirlei Azevedo sugere formas de prevenir algumas fraudes no varejo: solicitar identidade, consultar orgãos de proteção ao crédito, olhar com atenção a fotografia do documento, conferir a assinatura e verificar a idade da pessoa parecem atitudes banais, mas são de suma importância. “O tipo de fraude mais comum ainda é falsificação de documento, principalmente o de identidade”, salienta Nirlei. Ela ensina observar se a fotografia não foi colada (ficando o registro com uma textura mais fina ou mais saliente), verificar se os furos feitos em cima da foto estão alinhados, analisar a coloração do papel e a forma como a carteira do documento é plastificada.

         No caso da apresentação de cheque roubado, o risco é maior principalmente nos finais de semana. “É fundamental conferir dados, fazer perguntas adicionais – como data de nascimento e filiação -, aqueles que os fraudadores não gravam.” A consultora destaca que para identificar um fraudador é difícil. “Não há perfil, pode ser qualquer pessoa. Antigamente se observava pela aparência, hoje muitos indivíduos aparentam ter um bom status social, mas a característica que deve ser analisada é comportamental.”

         Cheques de valores elevados devem ser bem avaliados, ressalta a consultora. Ela cita o exemplo de eletroportáteis, que são fáceis de levar na compra à vista para logo serem revendidos. “Via de regra, a empresa deveria deixar a entrega do produto condicionada à compensação do cheque”, observa, lembrando que no caso de cheque sem fundos, existem outras razões para a devolução. “Mas se for apenas inadimplência, não chega a ser fraude”, pontua.

        O sistema financeiro também tem dificuldade em detectar quem trapaceou no cartão de crédito. Em vista disso, lojistas sofrem com prejuízos, ainda sem  números consistentes entre os pesquisadores. Campeã dos principais delitos lembrados, a emissão de cartão de crédito clonado passou a ser a mais aplicada no varejo.

Ex-funcionários podem gerar mais passivos

          Pedidos mais frequentes na Justiça do Trabalho, provenientes de ações movidas por ex-funcionários do varejo, os processos envolvendo horas extras, registros de jornada, adicional de insalubridade e demissão por justa causa representam 50 a 60% do total de casos na área trabalhista. Conforme Camilo Gomes de Macedo, advogado da Freitas, Macedo e Dalcin, os supermercados, por terem rotatividade de funcionários maior do que nas lojas, representam um número grande de causas trabalhistas, chegando a comprometer 15% do faturamento.

         Na opinião do advogado, que atende cerca de 200 processos/mês provenientes do varejo, uma forma de os empresários se prevenirem deste tipo de perda é trabalhar com assessoria preventiva. “Muitas vezes, se evitam estes transtornos a partir do departamento jurídico interno, com a conscientização do quadro funcional sobre seus direitos e deveres”, cita. Macedo alerta que há grandes possibilidades de perda neste sentido.

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