Um negócio borbulhante

A indústria de águas minerais vive no paraíso: um consumidor voraz e pouco atento ao que está bebendo. A má notícia é que a competição vai ficar cada vez mais implacável
Por: Geraldo Hasse / Redação de AMANHÃ
         O mercado brasileiro de águas minerais é uma festa da qual participam mais de 400 empresas. E cada vez chega mais gente procurando surfar nessas ondas. Para setembro deste ano, está previsto o lançamento da água Mormaii, marca de prestígio com sede em Garopaba, SC. Ela será engarrafada e distribuída pela veterana Da Guarda, de Tubarão. Ao se atirar nesse segmento, o surfista-empresário Marco Aurélio Raymundo (Morongo) segue o rastro de outro ex-atleta que há alguns anos mergulhou de cabeça na onda da água mineral. Dono da água Imperatriz, o ex-zagueiro gremista Oberdan Vilain preside hoje a seção catarinense da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam).
        Não é apenas em Santa Catarina que ferve o negócio das águas minerais. Em outras regiões do país, marcas tradicionais com mais de meio século de presença nas mesas brasileiras são seguidamente desafiadas por novos concorrentes. No ano passado, o mercado nacional registrou um crescimento de 10% no volume e de 15% nas receitas. As vendas saíram de 1 bilhão de litros em 1995 para mais de 5 bilhões em 2009. “Para 2010, esperamos novamente um crescimento de dois dígitos“, diz Luiz Fernando Mattos, diretor de marketing da Vonpar, que explora a marca Charrua, uma das quatro mais vendidas no Rio Grande do Sul.

        O boom das águas minerais veio da urbanização acelerada. Longe das cacimbas rurais e desconfiado das águas das torneiras citadinas, o consumidor toma cada vez mais água mineral. Para não pagar caro pelo produto em pequenas embalagens descartáveis, acostuma-se a comprar bombonas retornáveis de 20 litros para consumo em casa ou no trabalho. Se a água de garrafão representa mais da metade do volume consumido, a mineral de garrafinha ou copo é que garante a maior parte do faturamento dos engarrafadores e distribuidores. E a tendência é de um crescimento continuado até igualar os grandes mercados consumidores. Atualmente, cada brasileiro consome 24 litros de água mineral por ano. Os líderes mundiais são a França (160 litros/hab/ano) e os Estados Unidos (110 liltros/hab/ano). Segundo a consultoria Zenith International, em 2007, pela primeira vez, as águas envasadas superaram o consumo de refrigerantes gasosos e se tornaram a categoria de bebida de maior volume no mercado mundial.

         A região brasileira que mais cresce é o Nordeste, assolado por uma histórica escassez de água. Com 34% da produção, praticamente empata com o Sudeste (35%). O Sul engarrafa 13,7% das águas minerais produzidas no país, com vendas altíssimas no verão e fracas nos meses frios. Esses dados fornecidos pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) devem ser vistos com alguma reserva porque, além de ser bastante dinâmico, o mercado de águas minerais não é tão cristalino quanto aparenta.

Poço burocrático

        Segundo o Código das Águas Minerais (de 1945), consideram-se minerais as águas com propriedades físico-químicas distintas das águas comuns – capazes, portanto, de fazer bem à saúde dos usuários. Desde que consiga aprovação oficial do Ministério da Saúde e do DNPM, o feliz proprietário de uma jazida pode participar de um dos negócios mais disputados da economia moderna. Mas não se descuide dos serviços de vigilância sanitária e dos procons. Por constituir 70% do corpo humano, a água é um insumo alimentar tão indispensável quanto o ar.

        Entretanto, o desenvolvimento da tecnologia de perfuração, combinado à estagnação da legislação, iguala fontes de águas que jorram naturalmente e poços de águas extraídas mecanicamente das profundezas. Nas mesas dos consumidores, praticamente indiferentes às marcas, a qualidade da água acaba pesando menos do que outros fatores, como o preço, a embalagem e a presença no mercado. O jogo depende cada vez mais da logística e do marketing.

        Segundo Hamilton Martins Müller, distribuidor da água Da Guarda no litoral norte do Rio Grande do Sul, para se colocar em condições de engarrafar uma água mineral é preciso gastar R$ 1 milhão – é o quanto custa cumprir todas as exigências estabelecidas pela legislação nos âmbitos mineral, industrial e comercial. “O caminho das pedras começa com um bom advogado”, diz Müller, que trabalha em casa, em Xangri-La, de onde pilota encomendas para clientes de Torres a Porto Alegre.

        Nessa disputa feroz para saciar a sede do mercado, leva uma certa vantagem quem dispõe de uma fonte genuína, dessas que estão há décadas sob controle dos mais antigos engarrafadores. O grande trunfo, nesses casos, é dispor de matéria-prima a custo praticamente zero. Mas somente a qualidade não basta, já que a atividade também é acessível a quem tenha poder de fogo para achar e extrair água pura em poços profundos a uma distância comercialmente interessante dos grandes centros consumidores. Foi o caso da Fonte Ijuí, uma das marcas mais antigas do mercado gaúcho, com jazida a 12 quilômetros do centro de Ijuí, no norte gaúcho. Para não perder espaço na Região Metropolitana de Porto Alegre, em 2007 ela abriu um poço em Nova Santa Rita, perto de Canoas. Para se diferenciar da água original, batizou a novidade como Fonte Ijuí Levíssima.

        O esforço perfuratório das empresas que detêm marcas tradicionais é fruto do acirramento da concorrência. Segundo o DNPM, em 2001 havia 277 empresas produzindo águas minerais. Em 2007, eram 417. Em compensação, as concessões de lavra caem ano a ano (entre 2006 e 2007, a redução foi de 73 para 35). Das 1.266 concessões registradas no final de 2007 pelo DNPM, 766 eram de poços tubulares e 500 de fontes ou “surgências” naturais. Ou seja, cresce o bombeamento. A região com mais autorizações de captação de água mineral é o Sudeste, com 50% do total. Entre os Estados, a liderança é de São Paulo, com 258 concessões.

        A pulverização de marcas é tão grande que mesmo empresas de grande porte como AmBev, Coca-Cola, Danone, Nestlé e Schincariol não possuem individualmente muito mais do que 1% do mercado nacional. Enquanto permanecem no mercado dezenas de marcas de expressão local ou regional, surgem novas denominações de pequeno alcance ou literalmente sem gás para uma longa existência mercadológica. Fugazes como vagalumes, muitas das chamadas “aguinhas” sobrevivem graças à combinação de preço baixo com o oportunismo de distribuidores que também exploram postos de entrega de gás de cozinha, numa espécie de conveniência de urgência. “Muitos depósitos de água mineral funcionam sem alvará”, denuncia Cesar Luiz Bresciani, sócio-diretor da MCM Plásticos, de Esteio, uma das 3 indústrias de bombonas da Grande Porto Alegre.

        Mesmo convulsionado por tantas mudanças, o mercado nacional é liderado há décadas pelo grupo Edson Queiroz, de Fortaleza, que explora 21 fontes em 15 Estados. Dono das marcas Indaiá e Minalba (cuja fonte em Campos do Jordão foi explorada originalmente pela Nestlé nos anos 1970), o grupo cearense tem 14% do mercado, metade do que possuía há 20 anos, quando o precioso líquido ainda não havia despertado o interesse de grandes empresas especializadas em alimentos e bebidas (forte em gás de cozinha, o grupo Edson Queiroz explora a marca Nacional).

Logística é tudo

        Invadido por grandes fabricantes de cervejas e refrigerantes, que fazem valer sua capacidade logística, o mercado oferece cada vez mais risco para fabricantes tradicionais que sempre viveram apenas da água mineral. É o caso da marca Ouro Fino, captada numa fonte com vazão de 520 mil litros/hora no município paranaense de Campo Largo. Para segurar sua fatia de 3% das vendas, a Ouro Fino lançou as chamadas águas saborizadas e entrou também no ramo de refrigerantes.

        Augusto Mocellin, presidente da Empresa de Águas Ouro Fino, fundada em 1946, acredita que o mercado tende a ser dominado pelas grandes companhias fabricantes de bebidas porque “a logística é a peça fundamental desse jogo”. Mesmo assim, não passa pela sua cabeça, por exemplo, fabricar cerveja, produto que depende de uma boa água.

        A adoção de águas minerais por fabricantes de bebidas não é uma prática nova. Nos anos 1980, quando lançaram a cerveja Kaiser, os fabricantes paulistas de Coca-Cola incluíram a água Crystal no seu mix de produtos. Para mostrar que estavam entrando para valer no mercado, compraram uma fonte em Mogi Mirim. Mais de 20 anos depois, em 2008 a Crystal detinha 2,5% do mercado. Embora seja um índice baixo, ficou provado que a venda casada de água mineral com refrigerante e cerveja é uma estratégia interessante. Não por acaso, a AmBev dá carona a marcas de água mineral em seus caminhões de entrega de cerveja e refrigerante. Com 70 anos de existência, desde 1997 o grupo paulista Schincariol atua no ramo de água mineral. Sua participação no mercado não chega a 2%. Também ficou na história o lance de João Jacob Vontobel, da Vonpar Refrescos: em 1960, ele lançou um refrigerante (Laranja Zuki) apenas para ajudar nas vendas de sua primeira água mineral, a Minuano, anos depois retirada de circulação.

        Também cresce a atuação de multinacionais alimentícias. A Nestlé, que comercializa quatro marcas, possui captações de água mineral em São Lourenço (MG), Petrópolis (RJ) e Campos do Jordão (SP). Mesmo com tamanho esforço, em 2008 o grupo suíço tinha conquistado apenas 1,6% do mercado nacional. No momento, os engarrafadores de água mineral estão de olho na investida do grupo francês Danone. Mesmo reconhecendo que a água Charrua representa apenas 4% do faturamento do grupo Vonpar, cujo grande negócio são os refrigerantes, o diretor Luiz Fernando Mattos assegura que não pretende dar refresco aos grandes players emergentes no mercado de águas minerais. “Estamos preparados para uma guerra.”

Água leve, água dura

       A estratégia dos maiores engarrafadores é ocupar espaços mediante um grande esforço de distribuição sustentado por lançamentos de produtos novos em diversos sabores. Como todas as águas são aparentemente cristalinas, usam embalagens transparentes e carregam rótulos abonados pelos ministérios de Minas e da Saúde, os consumidores acabam naturalmente confusos. Afinal, num mercado bastante pulverizado, repleto de pequenos competidores, como saber se todas as águas engarrafadas são, de fato, minerais e de boa procedência?

        A única saída é conferir as informações impressas nos rótulos, onde o fabricante tem de colocar tudo o que importa para o consumidor. Ou, seja, onde é captada a água e quais suas propriedades físico-químicas. O percentual de hidrogênio e os teores de bicarbonatos, nitratos, cálcio, magnésio, potássio e sódio fazem a diferença entre uma água leve, média ou “dura” (mais ácidas). “As melhores águas para a saúde humana são as isotermais, cujas fontes – raras – jorram naturalmente a temperatura de até 37º C”, afirma o distribuidor Hamilton Martins Müller. Com formação em química e longa experiência no comércio de águas minerais, ele recomenda as águas oriundas da rica fenda geológica situada entre Gravatal e Caldas da Imperatriz, no sul de Santa Catarina. Mas lembra: nem todas as águas termais são potáveis. As sulfurosas, por exemplo, são intragáveis. As nitradas, muito pesadas. As bicarbonatadas são boas para o sistema gástrico, mas podem onerar as artérias. Todas, mesmo sendo captadas em bases profundas, não estão livres da infiltração de substâncias depositadas na superfície.

        Cada vez mais a contaminação dos mananciais, a adição de cloro às águas tratadas e a poluição de rios, lagos e represas ajudam a expandir o mercado de águas minerais. Marcas tradicionais já foram atingidas por denúncias de contaminação e até por cassação do direito de lavra. Em junho de 2009, por exemplo, a Vigilância Sanitária de Goiás mandou inutilizar o lote 74 da água mineral sem gás Caldas Novas, engarrafada no município de Marzagão, por indício de contaminação de origem fecal. Foi um acidente pequeno no maior manancial de águas termais do Brasil, na região da Pousada do Rio Quente, atração turística das últimas décadas nas vizinhanças de Brasília. No Rio Grande do Sul, a associação dos distribuidores de água mineral (Adam-rs) realiza uma campanha de esclarecimento público. “Os consumidores precisam saber que existem no Rio Grande do Sul três ou quatro marcas de água mineral não licenciadas pelo DNPM, mas autorizadas pela Anvisa”, diz Dorival José Diesel, presidente da Adam-rs.

        Como cabem recursos às medidas legais, algumas águas minerais “sujas” voltam rebatizadas, sem que a maioria dos consumidores se dê conta de tais operações-limpeza. Por isso, todo cuidado é pouco. A maioria dos consumidores de águas minerais é aprendiz. Em restaurantes, costuma pedir água “com gás” ou “sem gás”. Marca? Qualquer uma. Para o consumo doméstico, em grandes embalagens, o nome também importa menos do que o preço. Foi assim que passou praticamente em branco, no ano passado, a portaria do DNPM que tornou obrigatória a substituição a cada três anos das bombonas de água mineral. Até agora, a validade do vasilhame era de seis anos, mas por falta de fiscalização é usado até quebrar ou ser repudiado por má aparência.

Ganhando moral

        Bem antes do esgotamento do prazo final para a troca dos garrafões (marcada para 30 de junho de 2010), a portaria foi bombardeada pelo lobby da indústria de água mineral, socorrida pelo deputado federal Roberto Santiago (PV-SP). Já no ano passado, ele apresentou na Câmara um projeto de lei questionando a viabilidade da medida e sugerindo novas normas para evitar a contaminação da água nos garrafões de 20 litros. Na prática, a portaria foi suspensa por uma cascata de liminares. De fato, não interessa a nenhum engarrafador ou grande distribuidor arcar de uma vez só com a substituição do único vasilhame retornável do mercado de águas minerais. De qualquer forma, preventivamente, já se lançaram ao mercado galões retornáveis de dez litros.

         “O mercado das águas minerais está se moralizando, tanto que antes mesmo da portaria o pessoal já vinha trocando os garrafões”, diz Cesar Luiz Bresciani, que fabrica bombonas de 20 litros em Esteio, na Grande Porto Alegre. Há três anos na indústria de embalagens, ele já foi engarrafador e distribuidor de águas minerais. Quando saiu a portaria do DNPM, preparou-se para uma enxurrada de pedidos. Acertou – em parte. Com cinco sopradores e 12 funcionários, a fábrica passou de dois para três turnos de operação, mas nem toda a demanda veio do segmento de águas. Também está fornecendo para fabricantes de outras bebidas. E começa a conviver com os problemas do crescimento. O faturamento está chegando ao limite da categoria de empresa registrada no Simples.

        E a Braskem, fornecedora da matéria-prima, já avisou que o preço do polipropileno vai ter um reajuste entre 6% e 8%. No ano passado, Bresciani absorveu dois pequenos aumentos no preço da resina. Agora, não vai dar para manter os R$ 6,80 que vinha cobrando por bombona.
Fonte: Revista Amanha

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